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Vicente F. da Silva

BiografiaVicente F. da Silva

Vicente Ferreira da Silva apresenta-se ao pensamento brasileiro sob a dupla feição de uma genialidade transparente e de um insolúvel enigma. E o enigma consiste no fato de a posteridade ter lhe reservado um silêncio proporcional ao valor de sua obra. Para compreendermos um pouco sua situação paradoxal, é preciso adentrar as planícies de seu pensamento, mas também enfrentar os movimentos tectônicos de suas eclosões.

A obra de Vicente dialoga notadamente com as filosofias da existência e a fenomenologia, bem como incorpora em si elementos da história das religiões, da antropologia, e, sobretudo, da arte e da literatura. Entretanto, lidou com essa herança de uma tal maneira que chega a ser impossível defini-lo em alguma dessas correntes.

Começa com a lógica matemática, mas abandona-a tão logo se embrenha na fenomenologia das consciências. Nesse campo, atravessa a descrição da situação do homem feita por Scheler e as reduções de Husserl; reverencia o conceito de liberdade de Berdiaev; medita sobre o abarcador que, segundo Jaspers, seria nossa radicação primeira; incorpora o sentido histórico de Zubiri e a realidade radical de Ortega. Mas volta-se, sobretudo, para a luz projetante que confere legibilidade ao real, colhida em Heidegger, a ponto de ter se tornado conhecido como um pensador heideggeriano.

Se essa constatação não é incorreta, é parcial. Pois se Vicente é tributário da ontologia fundamental do pensador da Floresta Negra, dela se distancia, ao fundi-la a uma noção de consciência concebida como excentricidade divina (Schelling) e às teofanias e às antropofanias dos mitólogos (Bachofen, Kerényi, Eliade, Otto, Frobenius). Além disso, faz do comentário de poetas, como Rilke, Lawrence e Hölderlin, bem como da reescrita de mitos de diversas culturas, a passagem para uma filosofia cada vez mais originária. Desse modo, abre frestas nas clareiras do ser até então inimagináveis, mesmo para o Heidegger da última fase.

Em contrapartida, ao invés de gerar admiração, a Esfinge gerou medo. E a sua filosofia cada vez menos compreensível passou a ser confiscada pelo Leviatã das ideologias. Sim, caro leitor. O contraponto da descida de Orfeu é ter sido esquartejado pelas Mênades. Pensamento em permanente Kehre (reviravolta), ao contrário do que se quer, Vicente nunca perdeu solo e raiz. Pelo contrário, fez a história evoluir para a poesia e esta, para o mito, sua − nossa − essência.

Diálogo e solidão parecem ter sido a sua divisa. E se tanto o dialogismo quanto a finitude são marcas de toda postura filosófica autêntica, não o é o silêncio que se criou em torno de sua obra. Tal como um Janus bifronte, com uma face voltada para a eternidade e outra para o eclipse, uma à direita, digna da Fonte da Memória, e outra à esquerda, ocultada pela Fonte do Esquecimento, como sugere Platão, é preciso encararmos o enigma Vicente Ferreira da Silva como um espelho. A terceira face. A verdadeira. Assim, há algo nesse reflexo que, sendo nosso rosto, nos exorbita e, ao fazê-lo, pode produzir o esperado reconhecimento curativo. Nesse caso, não a intuição do Fascinator, como quis o filósofo paulista, mas a compreensão de alguns caminhos e descaminhos da história recente brasileira, em sua genuína demonstração de esplendor fatídico e de voluntária miséria.

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